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Confesso que quando houve todo o movimento sobre a compra dos direitos sobre a franquia Star Wars (dentre muitas outras da Lucasfilms) pela Disney, tive um misto de sensações boas e ruins. Certamente haveria uma nova leva de produtos de Star Wars no mercado. Seriam bons? Seriam ruins? Seriam importantes? Explorariam tudo o que de melhor foi feito até hoje? Como seriam tratados estando pela primeira vez fora do controle absoluto do criador, que tem todos os méritos de ter criado tudo isso do zero e todo o ônus pelas escolhas questionáveis dos últimos anos? Afinal, assim como deve ser muito fácil decidir fazer novos filmes de uma franquia que é garantia absoluta de retorno financeiro, é uma responsabilidade grande lidar com todo o hype que inevitavelmente tomaria conta da produção, até pela recepção morna dos últimos três filmes, prelúdios da trilogia clássica de Luke, Leia, Han e companhia.

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Bem, o fato é que se passaram alguns anos de muita expectativa no cenário nerd de lá pra cá e finalmente, ao apagar dos sabres de luz de 2015, o filme veio a público. É chegada a hora de finalmente descobrir qual caminho foi trilhado. E, logo de cara, assim, direto ao ponto, posso dizer que o filme é realmente muito bom! As escolhas feitas para roteirização e direção se mostram acertadas ao entregar um produto que honra tudo o que de melhor sabemos sobre esse universo ao mesmo tempo em que dá alguns passos adiante. J.J.Abrams e Lawrence Kasdan realmente somam o que há de clássico e tradicional ao que o cinema atual espera e entregam uma continuação direta da saga dos Skywalker que, ao mesmo tempo, se entende como um reboot da franquia que a apresenta para uma nova geração de fãs, e uma continuação de uma das sagas mais famosas e conturbadas da história do cinema. O velho e o novo, o atual e o clássico, a luz e a sombra, em uma mistura muito bem equilibrada.

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Tratando especificamente do roteiro, temos aqui um trabalho muito pautado em uma reintrodução do universo Star Wars nos cinemas. A organização de eventos, o plot principal e tudo o que conecta os diferentes personagens, novos ou antigos, que vão incorporando o mosaico do filme remetem ao que foi feito no episódio IV (como vocês devem se lembrar, o primeiro Star Wars feito). Desde a referência mais óbvia e direta que introduz os dois novos protagonistas e o droide BB-8 que promete ganhar tantos fãs quanto os famosos R2-D2 e C-3PO, até os arquétipos assumidos por outros personagens, em uma esquematização muito quadradinha e pautada na chamada Jornada do Herói, texto muito conhecido de Joseph Campbell sobre a trajetória dos protagonistas em narrativas clássicas. Contudo, o equilíbrio entre a apresentação de eventos de background com as cenas de ação e de correria é muito bem resolvido. Não há exageros nem do ponto de vista da explicação política, como em alguns pontos da trilogia de prelúdio, nem uma superexposição de batalhas e efeitos especiais. Tudo parece ter sido pensado para não pesar a mão em nenhum ponto, não arriscar nenhum exagero.

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Rey e Finn, os novos protagonistas, estão muito bem localizados na franquia. Ela, que seria um paralelo mais direto com o que foi Luke na trilogia clássica, passa pelo mesmo processo de chamada a aventura e de provação. Todavia, é uma personagem mais forte, mais aguerrida e tem muito mais indefinições em sua vida pregressa do que o “caipira” Luke Skywalker. Finn, por outro lado, é a parte menos óbvia nesse conjunto, quebrando estereótipos, seja como sidekicker, seja como alívio cômico, seja como elemento importante no encadeamento de eventos. É um personagem como nenhum outro na franquia e tem um potencial gigantesco a ser explorado. Do mesmo modo, Poe Dameron, outro novo personagem forte nesse filme, tem menos tempo de tela e pouca relação com o núcleo principal – pelo menos até aqui – mas mostra que também tem força para crescer e se tornar ainda mais significativo no que vier pela frente. A competência mostrada pelos atores é ainda notável, mostrando serem escolhas acertadas tal como também não acontecera até aqui, já que George Lucas nunca se notabilizou pelo trabalho com o elenco em si.

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Já no extremo oposto, Kylo Renn é um personagem que recebe uma pressão um pouco maior dentro da franquia. Obviamente, quando se entra como o principal antagonista do filme que é a continuação direta da trilogia que apresentou o maior vilão de todos os tempos no cinema, há uma exigência do público maior do que em qualquer outro filme. Isso tudo ainda é potencializado pelo marketing do longa, que entrega pouco sobre o personagem em si mas trata de trazer a figura de Darth Vader como algo muito vinculado a ele. Felizmente, o ator Adam Driver consegue cumprir o desafio bem. Seu personagem ainda não é Darth Vader, e tem algumas peculiaridades que deverão ser desenvolvidas nos próximos filmes. Ao contrário do que foi visto até então, tal como Rey, ele está em estado de desenvolvimento, ainda não atingiu a maturidade ou o ápice de poder e de entrega ao lado sombrio, e será muito interessante acompanhar o paralelo de crescimento dos dois opostos desse novo confronto que só está começando.

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Completando a questão do elenco, não poderiam faltar aqui as participações de personagens clássicos da franquia. Sem entregar nenhum spoiler, posso dizer que cada um deles tem uma importância, maior ou menor, para a trama. Poucos deles podem ser considerados somente fan-service. Afinal, uma das metas desse novo projeto era exatamente estabelecer uma ponte entre tudo o que já sabemos e o que de novo a franquia tem para apresentar. Nada mais justo do que ter esses caras presentes, impactando o que está por vir. Além disso, nada contra o fan-service. Referências e easter eggs saltam aos olhos o tempo todo, de forma mais ou menos explícita. Mas o mais importante: o filme não é refém da nostalgia, não se entrega a simplesmente se manter no lugar comum, em uma zona de conforto. Ele ousa, vai além, e deixa claro que estamos vendo algo novo, que mesmo mantendo uma sensação de um ciclo se repetindo, mostra que pode e deve ir além e realmente somar a tudo o que já é cultuado nos últimos 40 anos.

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O Despertar da Força, contudo, ainda tem pontos a serem melhorados. Seus problemas, porém, vem de duas fontes: a necessidade de o tempo todo estar vinculado ao universo já tão conhecido e ser a primeira parte de uma nova trilogia. Ele, obviamente, tem sua estrutura bem organizada, mas tal como O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, a conclusão é somente o gancho para o que vem adiante. Assim, a transformação dos personagens não se conclui, não alcança seu ponto final, o que pode fazer alguns elementos parecer estranhos. O crescimento repentino de Rey, por exemplo, tem sido questionado por muita gente na internet da vida, bem como seu trajeto um tanto apressado dentro do filme. Esse caminho é muito parecido com o de Luke ou mesmo Anakin nas trilogias anteriores. Isso dá a entender que, parece, a tolerância com o filme atual parece menor, talvez pelo próprio momento histórico social que vivemos hoje em dia, talvez por algum outro motivo que ainda não conseguimos enxergar.

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O mesmo pode ser dito sobre o contexto macro desta tal Nova Ordem e seu papel na política do universo, já que pouco se explica sobre como esse novo organograma do poder se configura a partir dos eventos de O Retorno de Jedi. Curioso é que muita gente reclama do excesso de politicagem na trilogia prelúdio, normalmente os mesmos que reclamam da ausência dela aqui. Fato é que certamente isso ficará muito mais claro no que vem pela frente. Lembremos que em Uma Nova Esperança, pouco se sabia de imperador ou do mapa do poder e suas relações com mocinhos e bandidos da história. O mesmo deve acontecer aqui. Os próximos filmes sofrerão das mesmas síndromes de segundas (parte do meio que fica comprometido por não ter começo ou fim) e terceiras partes (normalmente uma sequência de eventos como um clímax dentro do filme todo). Esperemos que os novos diretores tenham a habilidade de montar esse quebra-cabeça com sabedoria.

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De qualquer forma, ficam muitas perguntas para serem respondidas. O papel de cada um dos personagens apresentados ou reapresentados aqui, sua função, sua evolução narrativa e como tudo deve se resolver (ou não). Perguntas estas que, se feitas nesse texto, entregariam os famigerados e normalmente indesejados spoilers. Talvez mais tarde possamos debater um pouco mais sobre eles. O que fica é a certeza de que a despeito de um probleminha ou outro, O Despertar da Força é um ótimo filme, que dosa muito bem os elementos consagrados da franquia, dentre eles a jornada clássica do herói inesperado, o humor sutil, as cenas de ação importantes, a incompetência dos engenheiros malvados e a fantasia espacial que aprendemos a amar e que está dentre os elementos fundadores dessa cultura nerd na qual estamos inseridos. Que a Força continue fluindo bem. A nerdice agradece.

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Comments (3)

  • Alexandre zuppo
    19 de janeiro de 2016 at 12:53 Reply
    "...é uma responsabilidade grande lhe dar com todo o hype que ..." lhe-dar ou lidar ? "...habilidade de montar esse quebra-cabeça com sabedoria..." perdeu a oportunidade de usar um SABREdoria.. kkkkk Montanaro.. Parabens.. EXCELENTE texto... a pessoa que nao conhece nada de Starwars se ler esse texto antes de ver o filme, pode aproveitar um pouco melhor e regular sua expectativa.. Gostei.!!!! Agora, espero MUITO um texto-analise desses com direito a spoilers.. Quero ouvir as pessoas (nem todas as pessoas) falarem do filme, sobre a trama, a relacao do livro "Marcas da Guerra" com essa nova trilogia..... quero beber MUITO mais de Starwars... Abraco!!!
    • 19 de janeiro de 2016 at 15:57 Reply
      Opa... muito obrigado pelo comentário, Zuppao! Nem acredito que deixei passar um deslize desses. Valew pelo destaque. O trocadilho eu acabei perdendo mesmo a chance, nem seria justo usar. hauahuahau. Sobre um texto com spoilers, cara... tem muita coisa que renderia artigos e artigos. Estava até pensando com a rapaziada se vale a pena uma sessão especial para reflexões, teorias, conspirações, viagens... vamos ver. Se tiver, fazemos nela, senão, vamos na sessão view mesmo. Aguarde e confie...

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