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Sim sim, esta nova sessão da Llevel veio bem a calhar para que possamos criar aqui teorias e teoremas, viagens e conspirações, ou simplesmente problematizar temas que ficam fora de análises críticas tradicionais. Estreando o espaço, nada mais justo que falar de Star Wars. Sim, o novo filme tem tido, em geral, uma ótima recepção da comunidade de fãs, bem como do público em geral. Atualmente, é a terceira maior bilheteria de todos os tempos (sem números corrigidos pela inflação) atrás somente de Titanic e Avatar, algo que ainda pode mudar dependendo do que o filme fizer daqui em diante. Mais sobre o filme na crítica aqui mesmo da llevel que pode ser lida em algum link perdido por aí…  E já que está passeando por aqui, aproveite pra dar uma olhada nas primeiras impressões que nosso amigo Estevão Dias teve do novo jogo da franquia, Star Wars Battlefront.

Bom, mas qual é a proposta deste texto? Bem, muito se tem falado sobre a principal protagonista do novo filme e, tudo leva a crer, de toda essa nova trilogia, Rey. Ainda sem sobrenome revelado, sua origem é ainda um mistério. Afinal de onde ela vem? Quem são os seus pais e, principalmente, qual a sua relação com Luke e com a família Skywalker? Ainda vamos debater aqui a polêmica em torno de seu desenvolvimento considerado apressado dentro da trama e se o universo Star Wars comporta aquilo que foi mostrado dela nesse filme. Portanto, pegue seu Toddynho e vamos em frente. Já deixando claro que esse texto é dotado, obviamente, de muitos spoilers deste episódio VII. Só siga adiante se já tiver visto o filme.

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Contextualizando, Rey é uma catadora de lixo em Jakku, planeta onde a trama do filme se inicia, vivendo sozinha dentro do que sobrou de AT-AT e ralando muito para sobreviver com os recursos escassos do local e com a falta de lei daqueles que ali comandam. Fazendo um paralelo imediato com o episódio IV, ela encontra um droide que parece ter informações importantíssimas sobre o conflito grandioso que se dá entre a República restaurada e uma organização que parece ter tomado o lugar do Império, chamada de Nova Ordem. Não é muito claro, ainda, qual é o real status político da galáxia nesse momento, já que parece mesmo que o império caiu, mas que essa tal Nova Ordem tem uma grande influência, possuindo um poder bélico gigantesco e invejável, com direito a uma nova espécie de Estrela da Morte. Aliás, ao que tudo indica, um dos planetas destruídos por ela que parecia a capital da República não é Coruscant, como poderia parecer pela estrutura urbana.

Voltando a Rey, especula-se que ela seja, de fato, descendente direto da linhagem Skywalker. Uma fala de Maz Kanata, a personagem misteriosa que dá andamento a narrativa ao entregar o sabre de Luke para Rey, parece bem direta e objetiva. Ela diz algo do tipo “Este sabre foi de Luke Skywalker e antes do pai dele, e agora ele vem até você”. Essa fala é central na teoria de que ela é, de fato, filha e Luke. Também corrobora com essa possibilidade uma das lembranças dela, ao tocar o sabre dos Skywalker, ter sido deixada em Jakku pelos pais. Pode ter sido somente um recurso narrativo para explicar o passado dela e o motivo pelo qual ela continua a marcar os dias na parede se sua antiga casa, mas porque exatamente essa lembrança surge  ao ser “chamada” pelo sabre?

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Maz ainda diz que aquela que aquela que Rey espera não voltará, mas que outro sim e Rey responde de pronto “Luke”. Mais evidente que isso, impossível. Podemos questionar isso dizendo que Jedi não se casam ou não tem filhos, mas já vimos Anakin quebrar essa regra. Além disso, Luke se tornou um Jedi, mas nunca fez parte formalmente da ordem – até porque ela não existia mais – e, portanto, pouco ou nada tinha de conhecimento dos dogmas e costumes tradicionais. Mesmo que soubesse desse paradigma, não teria nenhuma obrigação de acatá-la. Portanto, tinha poucas amarras que o ligavam a essa regra. Não esqueçamos ainda da frase que ficou célebre no trailer e que acabou não entrando na edição final do filme, quando uma voz, que deve ser creditada a Luke diz “A Força é forte na minha família. Meu pai a tem. Eu a tenho. Minha irmã a tem. Você tem esse poder, também.” No filme em si, Luke não diz uma palavra sequer, então realmente não faria sentido a fala estar lá (e pode ser que esteja ainda no segundo filme). Mas tudo isso é óbvio… até demais. Por isso, desconfiemos.

Outra possibilidade que segue nessa linha seria a de ser filha de Leia, tornando-a consequentemente irmã de Kylo Ren – o que traria um tempero a mais no conflito central entre ambos. Lembrando ainda que ser filha de Leia não significa necessariamente ser filha de Han Solo, já que depois do Kylo Ren (ou Ben Solo) surtar, ambos seguiram seus caminhos separados. Como Rey aparenta ser bem mais nova que Kylo, não seria impossível Leia ter tido uma filha fora de seu relacionamento com Han Solo. Ainda assim é uma teoria talvez complexa demais e que pode entrar em um campo que não acredito ter sido a escolha do roteirista. Ser filha de Solo seria possível, certamente, já que a capacidade de pilotar a Millenium Falcon e a intimidade com a mecânica da nave seriam bons indícios de um talento herdado (algo comum em filmes para criar uma relação parental direta), mas seria um tanto cruel o pai dela ter morrido sem saber a verdade, ou, mesmo sabendo, sem ter o momento de revelação junto a filha.

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Ainda assim, ser uma Skywalker não é uma certeza, e muito menos algo consensual entre os fãs. Há quem até teorize sobre ela ter alguma relação com Obi-Wan Kenobi (afinal, não é fácil ficar sozinho tanto tempo em Tatooine rs), e essa teoria surgiu pelo simples fato dela usar no filme, sem qualquer referência, o truque mental que ficou famoso no primeiro filme exatamente pela forma como feita por Ben Kenobi. Contudo é uma possibilidade muito remota, já que teriam que explicar não só o que ele andou fazendo, como mais uma ou até duas gerações entre eles, algo que não encaixa bem com a dinâmica da nova trilogia. Ainda tem o fato de que outros filmes e produtos da franquia mostram que não é só Obi-Wan, mas sim todo Jedi que domina essa técnica. Além disso, em Clone Wars, Obi-Wan Kenobi mostra ali toda a sua dedicação a ordem Jedi, negando a paixão que já teve por uma mulher. Não faria sentido ele abandonar suas convicções depois de velho, principalmente ao presenciar o que aconteceu com seu pupilo. Ele é certinho demais pra isso. A maior aposta no caso de não ser uma Skywalker, ao que parece, é que ela seja mesmo filha de outras pessoas e que sua relação com Luke seja muito mais no sentido espiritual do que física ou genética, o que pode justificar a fala de Kanata e a conexão dela ao sabre principal da franquia. Isso leva a outro assunto sobre Rey.

Críticos mais eloquentes dizem que a evolução dela, dentro da trama, acontece apressada e um tanto quanto sem explicações. Afinal, mesmo tendo crescido em um fim-de-mundo, consegue dominar a Força sem qualquer treinamento específico e, assim, vencer os desafios a ela impostos. Primeiro, consegue resistir ao poder mental de Kylo Ren em interrogatório, poder esse que fora mostrado como muito forte em cenas anteriores quando o vilão consegue tirar de Poe Dameron informações confidenciais. Depois disso, ela consegue desenvolver, por conta própria, o “Obi-Wan Mind Trick” para convencer um Stormtrooper a soltá-la. Mais adiante, consegue manejar um sabre de luz com muita capacidade, a ponto de enfrentar Kylo Ren de igual para igual, com direito a fechar os olhos para canalizar a Força. Tudo isso, repito, sem nenhum treinamento formal.

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Rey, como todo herói da franquia e de tantas outras sagas, passa pela tal Jornada do Herói. Isso significa que ela deve começar em um ponto estável, mas sem importância, até se tornar a única capaz de vencer as forças adversas. Para isso, há passos, como encontrar um mentor, negar esse chamado, sofrer derrotas, superar suas dificuldades para então ser submetida por uma grande provação. Nesse filme, tudo isso parece acontecer rápido demais, sem muitos percalços. Em muitos argumentos que encontramos na internet sobre isso, parece que nada é novo ou realmente desafiador para ela, mesmo sendo alguém sem preparo algum. Sempre traçando um paralelo com Luke, que teve treinamento de Obi-Wan e Yoda, ou Anakin, que foi treinado desde muito cedo, parece que ela não precisa de nenhum mestre para se desenvolver, o que forçaria a trama a dizer que ela é mais poderosa que todos os demais.

A questão é: seria Rey uma personagem forte demais para os obstáculos diante dela? Afinal, ela sabe lutar, como podemos aferir quando mercenários tentam roubar o BB-8; ela é um piloto muito competente e cheia de recursos; ela sabe muito sobre mecânica de naves e as vezes parece saber mais sobre a Millenium Falcon do que Han e Chewie, ganhando até um emprego em poucas horas; consegue se livrar sozinha de qualquer submissão mental que Kylo tenta impor a ela; desenvolve a habilidade de controlar mentes mais fracas sem nenhum ensinamento do tipo; e ainda consegue manipular blasters e sabre de luz como poucos com treinamento. Como ela pode desenvolver tudo isso em um intervalo de horas, ou no máximo poucos dias, tendo passado a vida inteira como catadora de lixo em um planeta paupérrimo no Jakku do universo?

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Particularmente, discordo. Primeiro, Rey é uma jovem que cresce sozinha em um lugar inóspito, como já dito acima. No começo do filme, fica claro que se ela não soubesse se virar sozinha, passaria por muitos apuros. Ela aprendeu a se cuidar por conta própria, ao contrário de Luke que mesmo tendo crescido em um local parecido, estava sob proteção da família e vivia em uma fazenda. Era um rapaz com uma vida mais pacata, talvez até mais mimado a tomar como referência a birra que faz só porque não pode ir “viver a vida” na academia de pilotos. Rey, portanto, tem uma vivência de ter que ralar dia após dia muito maior. Daí vem uma relativa intimidade com um sabre de luz (já que ela manipula com competência o bastão que carrega desde o começo do filme). E, como tal, ao sofrer as investidas mentais de Kylo Ren, ela acaba entendendo como isso funciona. Claro que ajuda ser alguém dotada na Força, mas além disso, ela sente o que Kylo tenta fazer e aprende com isso. Nada mais natural que, na necessidade, ela tentasse fazer o mesmo com outra pessoa e calhou de tentar com o coitado que fazia guarda.

Em termos de batalha final, vemos que ela conseguiu lutar em pé de igualdade com Kylo Ren, que já havia mostrado habilidade com a Força. Parar um tiro de blaster logo no princípio do filme é simplesmente uma demonstração expressa de poder e domínio. Como ela poderia vencê-lo em sua primeira luta? Aí, temos alguns ingredientes sutis: o primeiro é que o antagonista estava ferido por ter levado um tiro direto do Chewie e acabado de matar seu pai (eu disse que haveria spoilers aqui), coisas que podem debilitar qualquer um. Isso por si só já mostra que ele estava com a mobilidade reduzida. Mais do que isso, Kylo também não é um mestre, ou um lorde Sith. Afinal, abandonou seu treinamento Jedi logo no princípio, quando surtou e, depois disso, não teve mais treinamento na Força. Tampouco lutou ou treinou com o sabre de luz, até pela falta de oponentes com as mesmas características. Ao contrário dos vilões da hexalogia anterior, os quais todos já eram claramente muito bem treinados, ele está em fase de desenvolvimento. Não está tantos passos assim adiante. Seu descontrole emocional em mais de uma cena, bem como sua insegurança – revelada pela própria Rey – em não ser tão bom quanto o avô são indícios de que ele está muito longe de dominar a Força por completo.

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O que isso significa? Que Rey o vence, diante uma sequência de eventos pequenos que, somados, lhe permitiram poder estar no mesmo patamar que seu inimigo. Tanto que a promessa para o próximo filme é como ambos irão receber o treinamento para desenvolverem suas potencialidades. Snoke pede explicitamente para que Kylo fosse levado a ele para terminar o treinamento enquanto Rey encontra Luke, em um paralelo do que aconteceu com o mesmo Luke quando encontra Yoda. Certamente, ambos terão um desenvolvimento paralelo para repetir seu confronto. De uma lado, um vilão em transformação, que acaba de se livrar da Luz que era temida pelo grande líder ainda desconhecido. De outro, a herdeira do legado dos Skywalker, treinada por Luke. Uma promessa de uma embate entre as sombras e a luz como todo fã sempre sonhou.

E ainda, para finalizar, há mais um tempero nessa história. E se Rey, independentemente de quem sejam seus pais, já conhecesse Luke? E se ela já tivesse passado, por exemplo, pela academia Jedi que foi descontinuada por conta do trauma que o Jedi sofreu ao perder seu sobrinho para o lado sombrio? Mesmo que não se lembre, Rey pode ter tido alguma iniciação na Força, que simplesmente estaria hibernando nela durante todo esse tempo e que despertou (olha aí o trocadilho com o nome do filme) quando foi necessário. Luke, quando jovem, não tinha esse conhecimento. Anakin, quando escravo, também não. Mas ambos desenvolveram muito rapidamente habilidades e competências específicas da Força. Rey pode ter o mesmo talento (ainda que as pessoas questionem isso), mas ter tido uma introdução a esse conhecimento pode acrescentar algo a mais.

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Bem… já há muito aqui a discutir. Esse post é sobre os mistérios do primeiro filme (que felizmente só serão respondidos daqui dois anos com o lançamento do episódio VIII em dezembro de 2017). Até lá, há muito que especular. É possível que o livro Marcas da Guerra também apresente novos indícios da resposta destas indagações. Assim, sejam bem-vindos a postar suas opiniões aqui nos comentários.

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Comments (4)

  • 27 de janeiro de 2016 at 01:20 Reply
    Sinceramente, acredito que ela não tenha que ter a linhagem nem de Skywalker nem de Obi-Wan, pois prefiro pensar que o "despertar da força" e aquela citação do Luke no trailer sobre "você tem essa Força também" se referem à oportunidade de qualquer mortal ter esse poder. Rey é uma personagem que, sem dúvida alguma, se tornou a mais poderosa (ou irá se tornar) Jedi da face do Universo. Isto é claro, porque ela foi deixada no meio de Jakku, ou seja, no meio do nada, para que ninguém fosse capaz de encontrá-la, e que de certa forma, ela sendo ou se achando uma ninguém, ela não fosse vista pelo lado negro da Força. Não sou fã de filmes de linhagem, que apenas o filho do Rei poderá ser Rei um dia, acho isso uma tremenda de uma falta de criatividade e veracidade; pois há a possibilidade de qualquer um ser o que bem entender, e não é o meu sangue que vai me definir o que eu tenho que ser. Isso, ao meu ver, é bem visível no personagem de John Boyega, o Finn. Ele vem pra quebrar o paradigma que diz que nasceu torto, morre torto. Pelo contrário, ele teve um "despertar da Força", tal qual Rey teve o dela, e ambos não se conheciam. Quando Maz Kanata diz tudo aquilo para Rey, pode parecer óbvio que ela fosse descendente direto de Luke, mas seria uma coisa óbvia demais para uma Sábia como aquela. Eu entendo que ela diz aquilo no sentido de que ela "despertou para Força" dela mesma, ou seja, que ela pode escolher em ter a responsabilidade de assumir quem ela realmente é, ou não, que é o que ela não faz logo depois das visões, ela tenta fugir de todo esse "despertar". Acontece que não é fácil fugir da Jocasta, para mim, a história da Rey é muito similar à de Édipo Rei. Ela pode tentar fugir do caminho, mas ao fugir, ela vai se deparar com o próprio caminho que fugira anteriormente. Uma vez despertado, não se quer dormir mais.
    • 27 de janeiro de 2016 at 10:21 Reply
      Fala, meu querido! Obrigado pelo feedback. Sobre o talento ou não para a Força, lembre-se dos midi chlorians! hehehe Tudo bem, esqueça pra sempre dos midi chlorians que é o melhor a se fazer. Falando sério, eu concordo contigo. Acho que essa conexão poderia ser muito mais espiritual, muito mais na linha da convergência da Força, do que consanguínea. Mas não dá muito para cravar. Lembrando que na trilogia original, as pistas para que Vader fosse pai de Luke estavam tão óbvias, tão óbvias, que acaram se confirmando no segundo filme. Não sei se a franquia tem vocação para criar uma expectativa e quebrá-la. Mas J.J.Abrams é famoso por fazer mistério sobre surpresas, os tempos são outros e tudo mais. Eu, particularmente, não teria problemas com essa paternidade. Star Wars, em sua linha principal, sempre foi uma história de família, de como os Skywalker se relacionam com a Força e como isso impacta no universo. Aliás, estive pensando... há outra possibilidade que não abordei no texto: teoricamente, Anakin é filho sem pai, ou seja, foi gerado espontaneamente pela mãe dele (como dito no episódio I). Quem garante? Quem disse que ela não mentiu para esconder um passado do qual não se orgulhava? E se o pai de Anakin, avô de Luke, existiu, e teve mais descendentes? Rey poderia fazer parte da linhagem, sem ser filha de Luke ou Leia? E se Snoke for o pai de Anakin? Isso dá um novo post, hein...
  • Kleber Souza
    15 de março de 2016 at 23:17 Reply
    E se no final ela for a escolhida, e não o Anakin?
    • 16 de março de 2016 at 16:52 Reply
      Fala irmão! Esta seria sim uma decisão bastante ousada. Afinal, todo o universo é focado em como Anakin era o escolhido e acabou sucumbindo. Mas ninguém nunca explicou muito bem porque isso era dado como certo. Talvez agora haja uma forma de provar que nunca foi ele, mas sim os eventos que ele desencadeou...

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