(Por @lleogame)

 

Resonance of Fate é um RPG da Tri Ace, produtora de séries de sucesso como Valkyrie Profile, Star Ocean e Tales of Phantasia. O jogo se passa em um cenário peculiar, misturando o estilo moderno dos protagonistas com um ambiente que lembra a Revolução Industrial da era vitoriana, em um mundo que estratifica as cidades e pessoas em diferentes níveis dos mecanismos de um imenso e descomunal relógio. O ponto alto de Resonance of Fate está na jogabilidade, que combina o tradicional sistema de turnos dos RPGs orientais com eventos ativos, de uma forma estratégica e recompensadora, incentivando o jogador a refinar suas habilidades para vencer desafios cada vez maiores.

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O jogo se inicia de uma forma simples, apresentando os protagonistas sem contextualizá-los com a história. Cria-se, então, certo mistério a respeito do mundo e dos capítulos. As classes sociais mais privilegiadas vivem no topo, longe da poluição e da sujeira que
tornaram o mundo inabitável. Logo abaixo da nobreza, vivem os três loiríssimos protagonistas. Vashyron, um galã durão no estilo “cowboy moderno”, faz qualquer coisa por dinheiro, mas acredita na liberdade de escolha e na força do destino. Seus protegidos são dois adolescentes: a feminina e delicada Leanne e o melancólico e rebelde Zephyr. Juntos, os três são caçadores
de recompensas que realizam missões para os abastados cardeais que habitam mansões suntuosas
nos últimos níveis da torre principal do mundo de Zenith.

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Algo que fica claro logo no início é que o foco de Resonance of Fate está na jogabilidade. O jogador é apresentado sem cerimônias a uma lista de missões, ao minigame de exploração do mundo e ao sistema de batalha. Não fosse pela qualidade da ação, seria difícil manter o interesse com essa abordagem “direto ao ponto” durante as mais de 60 horas necessárias para terminar o jogo. Não existem sistemas de customização de atributos ou habilidades. O aumento da perícia com cada arma resulta no aumento do nível geral dos personagens, determinando características como pontos de vida, habilidades passivas e o peso do equipamento que aguentam carregar. O arsenal dos protagonistas é limitado ao uso exclusivo de pistolas, submetralhadoras e granadas, com o uso ocasional de itens de cura e munições especiais. Além disso, acessórios podem ser equipados adicionando novas características ou proteções contra certos tipos de dano.

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Isso pode parecer pouco, comparado aos sistemas de outros RPGs, mas Resonance of Fate tem ainda um rico sistema de customização de armas. Ele possibilita aumentar drasticamente as estatísticas dos armamentos, à medida que o jogador acopla novos upgrades. Isso leva à criação de verdadeiros trambolhos com uma infinidade de canos e miras, totalmente desconexos com a realidade. Apesar disso, o processo de montagem é interessante, funcionando como uma espécie de quebra cabeças e requer planejamento. Partes de armas, granadas, munições e acessórios podem ser criados a partir de objetos coletados de inimigos vencidos, incentivando e recompensando as dezenas de horas investidas na repetição de combates. Além dos sistemas utilitários, há também diversas opções de roupas para os protagonistas, especialmente projetadas de acordo com seu estilo próprio. Dezenas
de opções fazem parte desse sistema, mas isso serve apenas a um propósito estético, sem influir nas habilidades combativas. Esta é uma forma interessante de valorizar os personagens, permitindo que o jogador se identifique com eles e podendo definir seus visuais.

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O melhor em Resonance of Fate está nas batalhas, que exigem estratégia do jogador, dando grande importância ao posicionamento dos combatentes, à passagem de turnos, à priorização de certos alvos e ao controle cuidadoso de cada ação, pois qualquer deslize pode ser fatal. A mistura de um sistema de turnos com eventos ativos dá uma profundidade tática ao combate, ao mesmo tempo em que exige o controle do jogador, prendendo a atenção a cada instante.

Os heróis do jogo são exímios acrobatas capazes de iniciar corridas cinematográficas em câmera lenta pelo campo de batalha, realizando movimentos e saltos espetaculares e descarregando repetidamente quantidades impossíveis de munição nos inimigos. Quando os caminhos dos personagens se cruzam, um contador de “pontos de ressonância” aumenta, e o uso desses pontos permite uma corrida simultânea dos três protagonistas, o que resulta em uma espécie de ciranda da morte.

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O recurso gasto nesses feitos são as unidades de uma barra heroica. Para recuperar essas unidades, é necessário que os personagens quebrem as barras de vida dos inimigos. A maioria dos inimigos tem uma barra de vida principal e diversas “sub-barras”, representando proteções localizadas que podem ser evitadas ou quebradas. Se o jogador usar demais as ações heroicas, sem quebrar barras de vida dos inimigos, a barra heroica se esvazia e os personagens se transformam em covardes inúteis que atiram devagar, movem-se lentamente e sofrem dano letal com frequência. Cada movimento, portanto, deve ser cuidadosamente pensado, pois entrar nesse estado enfraquecido é morte certa. Se o jogador não considerar direito sua estratégia, pode perder até mesmo combates que deveriam ser fáceis.

Em compensação, após o jogador compreender as complexidades inerentes ao sistema de combate, é possível usar táticas eficientes, permitindo a derrota de inimigos muitos níveis acima dos personagens. Além disso, cada combate pode ser repetido a qualquer momento, a um valor pequeno do dinheiro do jogo. Isso permite que os combates opcionais e os finais sejam especialmente épicos, recompensando os jogadores que investirem muito tempo no jogo, ou que avançarem rápido com a execução de estratégias perfeitas, aproveitando da possibilidade de tentativa e erro.

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Inicialmente, a narrativa do jogo alterna cenas cômicas com diálogos enigmáticos entre os cardeais mais importantes do cenário, cujos planos misteriosos obviamente terão consequências trágicas. Nos capítulos mais avançados, a relação entre os protagonistas e esses personagens vai ficando cada vez mais clara. A trama vai lentamente se completando, revelando as motivações e os conflitos internos que justificam suas personalidades. Os protagonistas vão sendo caracterizados como anti-heróis improváveis que lutam por motivos próprios, em vez das habituais dicotomias entre bem e mal que saturam o gênero de RPGs.

 

Os temas de um mundo decadente criado pelas inconsequentes ações humanas dos antepassados, o abuso do poder da tecnologia, que literalmente controla as vidas das pessoas, e a relação de hipocrisia de governantes que impõem seu domínio, através de dogmas religiosos, ilustram metáforas interessantes, embora mal aproveitadas. Essa simbologia cria um cenário curioso para o desenvolvimento dos melodramas de cada personagem, mas a narrativa não convence e não impressiona.

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No geral, os gráficos em Resonance of Fate são satisfatórios, mas após o primeiro contato com o cenário vitoriano e mecanicista do mundo de Zenith, restam poucas oportunidades de admiração. O design dos personagens é interessante e as cenas de corte são bem feitas, mas a maior parte dos ambientes se restringe aos cenários pobres de zonas de combate. Em contrapartida, a trilha sonora do jogo é quase toda orquestrada e apresenta diversos temas excelentes. A dublagem em inglês varia de qualidade, com a ótima atuação de Nolan North, o dublador do protagonista da série Uncharted do Playstation 3, no papel de Vashyron. Alguns dos outros dubladores, no entanto, deixam muito a desejar. Há também a opção de se jogar ouvindo as vozes originais da versão em japonês, mas muitos diálogos acontecem durante o combate e não apresentam legendas.

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Resonance of Fate é um RPG japonês peculiar e que oferece ideias originais no gênero, como é o caso de sua jogabilidade: bastante estratégica, e com um sistema de turnos bem combinado com eventos ativos. O conteúdo robusto e as diversas missões opcionais seriam capazes de manter o jogador entretido por bem mais de sessenta horas, caso houvesse uma história igualmente cativante.
São dezenas de horas de uma jornada sem grandes emoções, com muita repetição de batalhas e uma trama que só se desenvolve nos últimos capítulos.

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